terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pelotas, quinze de janeiro de dois mil e nove


         Lembro do dia 15 de janeiro de 2009 como se fosse hoje. Estava deitada na minha cama e no Orkut (sim, Orkut....) quando meus pais entraram no meu quarto falando “Teve um acidente com o ônibus do Brasil, liga na Pelotense”. Enquanto meu pai se arrumava para ir pro Pronto Socorro (ele era diretor geral de lá na época) liguei meu mini system, fiquei ouvindo noticias e criei um tópico na comunidade do Brasil perguntando se alguém sabia de algo já.  Após algum tempo sem notícias, fui com minha mãe e meu irmão para a sacada aqui do apartamento para esperar as ambulâncias (é, eu moro do lado do hospital), levei o rádio e meu bom e velho notebook junto. Vi quando as primeiras ambulâncias chegaram, trazendo o Cléber Gaúcho. Durante todo o tempo que as ambulâncias chegavam e partiam eu repetia o mantra na minha cabeça “Por favor, que uma dessas chegue com o Milar, o Alex e o Régis”. As ambulâncias me trouxeram um.
            Depois de algum tempo fiquei sabendo que ele, o Cléber Gaúcho, trouxe a noticia da morte do Milar para o senhor médico do time, que falou pro meu pai. Chorei como se tivesse perdido algum parente, alguém próximo. Chorei no ombro da minha mãe. Não pude dar a notícia para ninguém, e sinceramente sequer queria – seria como afirmar aquilo que eu ainda esperava que fosse mentira. Eu lembro de só encarar as luzes ofuscantes das ambulâncias e ver os torcedores na volta do hospital, querendo noticias de primeira mão. O resto da madrugada passou como um borrão, continuei chorando ao saber da morte do Régis e do Giovani, e que o Alex havia sobrevivido. Após um tempo me acalmei, tentei bloquear aquilo tudo, e por algum motivo quando estava quase amanhecendo descemos para comprar refrigerante numa lancheria que tem aqui perto – e lá vi, a dor estava estampada no rosto das pessoas. Uma dor que tu sabe que nunca vai ser superada, apenas será bloqueada. E novamente comecei a chorar baixinho na rua (juro que eu nunca chorei tanto numa mesma madrugada).
            Meu pai ficou lá no Pronto Socorro durante todo esse tempo, e foi nesse dia que vi o quão incrível ele é. Ele e todos os médicos e enfermeiras(os) que acordaram e saíram de casa em plena madrugada, inclusive alguns que não trabalhavam no PS. Quando meu pai chegou eu já estava no meu quarto, tentando inutilmente dormir. Minha mãe diz que ele apenas “quebrou”, saiu da máscara de médico já havia visto de tudo em mais de 10 anos de emergência, quando chegou em casa. Ele viu os jogadores por quem torcemos abraçados, juntos, rindo, com raiva num estado que ninguém deveria estar – quebrados fisicamente e emocionalmente. E eu admiro muito isso, o profissionalismo. Eu nunca conseguiria agir assim. E eu devo a ele tudo que me cerca o Brasil, já que quando eu era apenas um bebê ele fazia um bullying severo com o Pelotas sempre que víamos uma referencia ao co-irmão pela rua. Fui planejada geneticamente para torcer para o Brasil.
            No primeiro jogo após o acidente, com o Botafogo, vi um dos espetáculos mais alucinantes como torcedora xavante, algo que mesmo quatro anos depois eu nunca vi a torcida daquele modo. O gol do Alex Martins contra o Santa Cruz, onde jogou três flechas para o ar sob o grito de 15 mil pessoas. O time ruim, ruim que doía. A briga e a fúria do Alex na goleada sofrida contra a Ulbra na Baixada e do Danrlei levando a maior voadora que vi na minha vida. Tudo isso tá na minha memória. Tá na memória de todos os torcedores, inclusive isso é visível em todos os jogos onde a gritamos os três nomes. Na apresentação do filme sobre o centenário, quando se falou do acidente, apenas se ouvia fungadas.
            É uma noite que não acabou, como diz o título do incrível livro do Eduardo Cecconi e do Nauro Junior, apenas aprendemos a viver com ela.
            Nunca esqueceremos.

            

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