terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Tabu do Prazer Feminino

          Ela é bem resolvida. Mora sozinha, chega e sai a hora que quer e paga todas as suas contas em dia, com o dinheiro fruto de seu trabalho. Lê muito, está sempre bem informada e por isso se sente confiante para se posicionar sobre diversos assuntos. Já teve muitos romances, alguns tranquilos, alguns mal resolvidos e outros só por uma noite. Não fica envergonhada ao falar sobre sexo e lida com tranquilidade com o chamado “sexo casual”. Sentada com algumas amigas, em um bar qualquer, ela tinha um segredo. “Bar é lugar pra tudo” pensava, mas não conseguia se sentir confortável. Aquelas 3 amigas já tinham ouvido sobre seu trabalho, problemas com o ex, sobre quando atrasou o pagamento do carro, quando o chefe deu em cima dela, quando tentou apimentar a relação com o namorado... Enfim, elas sabiam tanta coisa. Mas aquela dúvida que ela guardava desde a adolescência parecia errada, proibida. Terminou sua cerveja e por fim perguntou  -Vocês se tocam?-. As amigas se olharam em silêncio e um clima de constrangimento tomou conta da mesa. Então uma respondeu, bastante encabulada, “sim”, seguido de outro “sim”, outro “sim” e mais um “sim”. As quatro mulheres começaram a rir. Por certo lembravam de todas as vezes que ouviam os meninos da escola fazendo brincadeiras sobre a chamada “punheta”, sem se preocuparem com julgamentos, enquanto elas lembravam da noite anterior com um sentimento de culpa por aquele prazer inexplicável. -Desde quando?- questionou uma. “Onze.” “Treze.” “Treze.” –Descobriram como?- “Ah, vendo filme.” “Me tocando, não sabia bem o que era.” “Vendo filme também.” A conversa seguiu por algum tempo até que uma pergunta saiu da boca das quatro amigas – Por que nunca falamos sobre isso? –



            Por que nunca falamos sobre isso?

Muitas gurias que estão lendo esse texto nunca falaram com as amigas sobre o “auto-prazer”. No máximo com aquela melhor amiga que a conhece desde a infância. Mas certamente já ouviram inúmeras piadas de punheteiros de plantão e riram sem embaraço. É fácil achar uma roda de amigos onde os guris/homens falam sobre seus momentos de “auto-amor”, mas achar uma roda de amigas onde esse tópico se mostra comum é uma tarefa que exige mais paciência. Quando conversei com minhas amigas pela primeira vez sobre o assunto, ouvi várias frases do tipo “nossa me sentia culpada”, “eu achei que eu era a única” “eu tinha tanta vergonha do que eu sentia”, a essa altura essas frases já eram ditas em meio a risadas descontraídas. O assunto permaneceu ainda algum tempo sendo de difícil abordagem para o grupo, mas em seguida já era discutido livremente, inclusive com garotos presentes, que particularmente demonstravam bastante surpresa e interesse por essa prática feminina. Após a quebra desse tabu, até mesmo as mais tímidas deixaram o sentimento de “culpa” de lado e passaram a conversar sobre suas experiências, descobertas e truques. As piadas já não causavam mais desconforto. A sociedade prioritariamente cristã em que vivemos nos ensinou a repudiar o chamado prazer sem sacrifício. Por isso, parece absurdo que um simples toque nos cause tamanho êxtase, então nos agarramos a um sentimento de culpa como penitência por aquela deliciosa transgressão. Muita coisa mudou no universo feminino, conquistamos espaço em ambientes antes proibidos para nós, mostramos competência em vários aspectos e ainda enfrentamos desafios para receber um tratamento de fato igualitário. Então porque a masturbação ainda é um assunto tão temido pelas mulheres? Por que tantos homens se mostram surpresos quando uma mulher fala sobre isso ou demonstra isso com naturalidade na cama? Conhecer o próprio corpo, explorar a própria sensibilidade, descobrir o que é excitante e o que é desconfortável pra si é fundamental para uma vida sexual mais satisfatória. Ser capaz de sentir prazer sozinha é uma chave para sentir prazer a dois. Então, gurias substituam o sentimento de culpa e vergonha pelo sentimento de orgulho, afinal, vocês conhecem o corpo de vocês e sabem o que lhes dá prazer.

Cássia.

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