sábado, 16 de fevereiro de 2013

Título para fins de organização


            Ela saiu do prédio e fora surrada pela imagem de um lindo pássaro sem pata. Não sabia o motivo de tal realidade tê-la chocado tanto, afinal, qual o problema maior de um animal feito para voar não ter pata? Seu lugar é o ar, não a terra. É como um ser humano sem asas, tentou se consolar a menina, só que, como era sua sina, não conseguiu deixar passar desapercebido o grande absurdo que acabara de pensar, pois, por mais que animais que voem não precisem de suas patas, eles têm patas, já o homem não tem asas; ou ao menos não as descobriu. Contudo, enquanto devaneava, passou uma bicicleta perto do pássaro, ele tentou voar, mas não conseguiu equilibrar-se, apenas deu um voo curto e desordenado para, logo após, voltar ao chão. A jovem pensou, então, em como o mundo poderia ser estranhamente cruel, um belo animal feito para voar, não conseguia pelo simples fato de não ter perna, símbolo cru e frio do solo, do “pé no chão” – e foram inúmeras as vezes que usara essa expressão com as pessoas –, via ali a mais linda metáfora para a certeza de que nada adiantava algo sem bases, um resistente alicerce que resistisse ao que de mais danoso houvesse, guardaria-a. Só que a moça mal percebeu quando o pássaro voou, não notou, talvez, a real intenção daquele sobrevoo, não viu que o animalzinho ciscava e que a ciscar voltou, e que agora apenas pouco voou, pelo fato de assim o querer. A mulher mal percebeu, mas, sim, viu, embora tenha se virado e apenas ido embora; até que, meio inesperadamente, ouviu uma voz, um canto, livre como – ousaria dizer livre como um pássaro? –... livre, apenas isso, que a convidava para ir consigo, sem dizer lugar, sem motivos, somente o convite, inaceitável chamado que, por algum motivo, fê-la pular, pouco, afinal já não era mais uma criança, mas ainda bem para a idade; por algum motivo, depois de saltar, sentiu-se mais leve, como que com um casaco a menos, e voltou a pular, dessa vez mais alto, e sentiu-se ainda mais leve, e novamente pulou e mais leve ficou e não mais pulou, mas sim voou, descobriu suas asas, sim, os humanos as tinham, apenas não as usavam, alcançou o pássaro, conseguiu acariciá-lo, ele até sorriu, só que, a menina lembrou-se de que pássaro não sorri, assim como que mulher não vira criança e humano não voa, apenas salta, e que todo pulo retorna ao chão e que o impacto, bem, o impacto dói mais com a altura, e que não mais pularia ao alcançar o chão. Há quem diga que o que se viu nesse dia não passou de ilusão, são pessoas bem pernadas, mas eu não digo nada apenas lembro-vos que uns vivem melhor com pernas e outros nos ar. Enfim, convido-vos, apenas para quem quiser nos seguir, não faço campanha, pois alguns podem cair mal.

Bira.

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