Ela
saiu do prédio e fora surrada pela imagem de um lindo pássaro sem pata. Não
sabia o motivo de tal realidade tê-la chocado tanto, afinal, qual o problema
maior de um animal feito para voar não ter pata? Seu lugar é o ar, não a terra.
É como um ser humano sem asas, tentou se consolar a menina, só que, como era
sua sina, não conseguiu deixar passar desapercebido o grande absurdo que
acabara de pensar, pois, por mais que animais que voem não precisem de suas
patas, eles têm patas, já o homem não tem asas; ou ao menos não as descobriu.
Contudo, enquanto devaneava, passou uma bicicleta perto do pássaro, ele tentou
voar, mas não conseguiu equilibrar-se, apenas deu um voo curto e desordenado
para, logo após, voltar ao chão. A jovem pensou, então, em como o mundo poderia
ser estranhamente cruel, um belo animal feito para voar, não conseguia pelo
simples fato de não ter perna, símbolo cru e frio do solo, do “pé no chão” – e
foram inúmeras as vezes que usara essa expressão com as pessoas –, via ali a
mais linda metáfora para a certeza de que nada adiantava algo sem bases, um
resistente alicerce que resistisse ao que de mais danoso houvesse, guardaria-a.
Só que a moça mal percebeu quando o pássaro voou, não notou, talvez, a real
intenção daquele sobrevoo, não viu que o animalzinho ciscava e que a ciscar
voltou, e que agora apenas pouco voou, pelo fato de assim o querer. A mulher
mal percebeu, mas, sim, viu, embora tenha se virado e apenas ido embora; até
que, meio inesperadamente, ouviu uma voz, um canto, livre como – ousaria dizer
livre como um pássaro? –... livre, apenas isso, que a convidava para ir
consigo, sem dizer lugar, sem motivos, somente o convite, inaceitável chamado
que, por algum motivo, fê-la pular, pouco, afinal já não era mais uma criança,
mas ainda bem para a idade; por algum motivo, depois de saltar, sentiu-se mais
leve, como que com um casaco a menos, e voltou a pular, dessa vez mais alto, e
sentiu-se ainda mais leve, e novamente pulou e mais leve ficou e não mais
pulou, mas sim voou, descobriu suas asas, sim, os humanos as tinham, apenas
não as usavam, alcançou o pássaro, conseguiu acariciá-lo, ele até sorriu, só
que, a menina lembrou-se de que pássaro não sorri, assim como que mulher não
vira criança e humano não voa, apenas salta, e que todo pulo retorna ao chão e
que o impacto, bem, o impacto dói mais com a altura, e que não mais pularia ao
alcançar o chão. Há quem diga que o que se viu nesse dia não passou de ilusão,
são pessoas bem pernadas, mas eu não digo nada apenas lembro-vos que uns vivem
melhor com pernas e outros nos ar. Enfim, convido-vos, apenas para quem quiser
nos seguir, não faço campanha, pois alguns podem cair mal.
Bira.
Bira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário